Penso que o ponto de partida foi o Godofredo. Como se dizia na época, “Godô chegou, confusão começou”.
Meu pai tinha mais 4 irmãos e 2 irmãs. Godô tinha problemas de saúde, e os médicos recomendaram morar eu um lugar de ar puro. Assim, foram para Rodeio, hoje Paulo de Frontin. Passaram a ter intimidade com a vida do interior; vô Arnaldo, por exemplo, fazia biscates no matadouro e também na estação de trem. Com a melhora do Godô, voltaram para o Rio. A famíllia era muito unida; dos 5 irmãos homens, 4 moravam em Laranjeiras, praticamente vizinhos; apenas tio Mário morava afastado, em Copacabana.
E então os 5 irmãos resolveram comprar um sítio. Escolheram a região que conheciam, e assim fomos para em Morro Azul do Tinguá, que também já se chamou Guaribú. Para nome do sítio escolheram a constelação das 5 estrelas – o Cruzeiro do Sul, daí o nome de Granja Cruzeiro.
Assim como diz a Bíblia, no início Morro Azul era um caos. 2 casas (casa do Guaraci e galpão), mais capoeiras e banananeiras.
A cidade não existia. Padaria, igreja, pracinha e hotel, vieram muito depois. Era mais ou menos final da década de 30, os automóveis eram aqueles calhambeques antigos, vindos dos filmes de gangster de Chicago, e que sempre nos faziam pernoitar na estrada.
Até que, como na Bíblia, choveu 40 dias e 40 noites. A chuva nos pegou na estrada entre Paulo de Frontin e Sacra Família, ali na fazenda do Bordallo, onde um japonês tem uma horta enorme. Mas disso eu não me lembro, tinha apenas 3 mêses de idade. Me contam que ficamos 2 ou 3 dias imersos na lama, alguém perdeu os sapatos, os empregados da fazenda nos forneceram uma feijoada que havia sobrado. Eu, pequeno assim, só pude comer a carne-sêca.
Estavamos em um momento duro na economia mundial, em um lugar com poucos recursos e sem estradas. Daí a obstinação do Godô em construir aquele sítio. Projetou construções e reformas, plantações e criações. Pela linha de trem, mandava patos africanos e sementes de capim quicuio para São Paulo. A custo, trazia material de construção. E sendo solteiro, era quem controlava todas as funções no sítio, e ainda levava os sobrinhos queridos.
Temos ali no sítio um obelisco, testemunha ocular da história: um pé de figueira braba, no morro atrás da casa do Guaraci. Quando eu era pequeno (idade de ler Sítio do Pica-pau Amarelo – 10 anos?) ela já era do tamanho que é hoje; então. no mínimo, ela está ali há 100 anos, vendo calada tudo o que acontece, e hoje acalentando a Leda na sua varanda.
Como costumavamos falar nestes tempos de pequenos “entrou por um ouvido e saiu pelo outro, quem quiser que conte outra!”
Enviado por: Paulo Feijó
Que saudades do Godô…